Saúde bucal dos nossos gatinhos

Talvez alguns tutores não saibam, mas a saúde bucal dos nossos pets tem muita influência tanto na qualidade quanto na expectativa de vida deles. E isso vale também para nós, humanos, sabia?

Na nossa rotina veterinária, as doenças periodontais são muito mais comuns do que provavelmente a maioria pensa. E com isso, a boca dos gatinhos acaba sendo negligenciada pela falta de informação. Então, esse foi assunto escolhido da vez!

Recentemente, tivemos um ocorrido com nosso Afonsinho, ele foi resgatado em setembro 2020 e 3 semanas depois, encontrei ele babando enquanto dormia, o que pode ser algo atípico em gatos. Além de estar com secreção um pouco purulenta em um dos olhos.

A princípio, não dei muita atenção, mas passados uns dois dias, ele começou a ter dificuldade para comer e apreender os grãos de ração. Voltei a examinar a boca dele e percebi que o canino (presa) superior direito estava com a gengiva bem vermelha e ele se incomodava muito enquanto examinava, indicando que estava com dor.

Imediatamente liguei para minha amiga, também médica veterinária (MV) e marcamos com urgência uma profilaxia dentária (limpeza de tártaro) com possível extração desse dente. No dia seguinte, foi realizado o procedimento juntamente com a retirada deste dente (figura 01), confirmando que este canino estava bem infeccionado e até com presença de pus no alvéolo (o “buraco onde o dente fica”).

 

Dente canino extraído do Afonsinho
Figura 01. Dente canino extraído do Afonsinho. Secreção sanguinolenta com presença de pus. Fonte: arquivo pessoal.

 

Pode até parecer exagero ter feito tudo tão corrido, mas caso tivesse demorado, com toda certeza nosso Afonsinho ia parar de comer por causa da dor e isso agravaria o caso, tornando-se uma urgência.

Quando os gatinhos não comem por mais de 24h, o alerta vermelho deve ser acionado!

Vou explicar de uma forma simples o que acontece: em jejum prolongado, o metabolismo dos felinos “mobiliza a gordura” presente no fígado para compensar a falta de nutrientes, levando a um quadro que chamamos de lipidose hepática, que seria como uma “inflamação do fígado”. A lipidose não é uma doença e sim, um sinal clínico de que algo não está indo bem e o tratamento disso, é descobrir a causa e voltar a alimentar corretamente esse paciente. Caso isso não aconteça, há grandes chances desse gatinho ir a óbito! Por isso agi com o Afonso como uma urgência, pois quanto mais rápido resolvido o problema (nesse caso, a remoção do dente e limpeza de tártaro), menor será as complicações. Lembrem-se disso!

Se o seu gatinho parar de correr, ele precisa de atendimento veterinária o quanto antes!

Quando pensamos nessa afecção, a estimativa é de que em torno de 50% dos gatinhos apresentem algum grau de doença periodontal a partir de um ano de idade. Porém, alguns podem começar a ter problemas bucais ainda mais jovens (com menos de um ano), assim que ocorre a troca de dentição.

A troca dos dentinhos de leite para os permanentes, inicia entre 6 a 8 meses de idade!

Geralmente, a enfermidade pode iniciar com cálculos dentários (tártaro), fazendo com que a gengiva comece a inflamar (gengivite), aumentando a presença de bactérias que facilita as infecções e conforme vai agravando, desencadeia as reabsorções dentárias levando a perda de dentes, até infecções em órgãos importante, como o coração. Como no caso do Afonso foi feito o tratamento bem no início da doença, o quadro não evoluiu para algo mais grave.

Vale lembrar que as bactérias, ao cair na corrente sanguínea, podem atingir qualquer lugar do corpo, mas geralmente elas irão nos “órgãos alvo”, que são os mais importantes, como coração, pulmões e rins.

A queixa mais comum dos tutores é a halitose, ou seja, mau hálito. Nesse caso, o MV deverá investigar e descobrir a causa. Há presença de reabsorção dentária? Houve algum trauma que quebrou algum dente? Esse gatinho é positivo para algum vírus como FIV e/ou FeLV? (caso ainda não saiba o que são essas duas doenças, clique aqui para ler o post completo), há problemas respiratórios, diabetes, vômitos recorrentes? Notou dificuldade para comer e/ou beber? Entre outras suspeitas a serem descartadas.

Ainda há ainda alguns fatores do próprio animal que também influencia e devem ser investigados, são esses: idade, raça, genética, sistema imune, tipo de dieta/alimentação e anatomia da arcada dentária (“mordida” errada, por ex.).

Além da halitose, poderá haver a presença de sangue na escova de dentes após a escovação ou nos brinquedos e na comida, mucosa com cor diferente do normal (mais vermelha ou arroxeada), salivação sanguinolenta, dificuldade para comer e beber, corrimento nasal pus, anorexia e prostração.

Em casos mais graves, pode ocorrer até mesmo a absorção dos ossos da face, levando a infecção generalizada (sepse) e pode também, aumentar a chance de neoplasias orais. Percebem o quanto algo que parece “simples” pode diminuir a qualidade de vida e até mesmo, a expectativa de vida do seu gatinho?

Depois de toda essa informação, por onde podemos começar o tratamento? Caaalma, que eu explico! Vamos lá!

Quando a doença periodontal já está instalada, a profilaxia dentária (limpeza de tártaro) é o ideal, lembrando que juntamente com a escovação diária, esta é a melhor forma de prevenção dessa afecção, sendo indicado para animais a partir de um ano de idade. Lembrando que para assegurar um tratamento adequado é imprescindível o procedimento ser realizado através de anestesia geral para obter bons resultados. Afinal, até para nós que entendemos o que está acontecendo, já deixa muito humano nervoso, que dirá nosso gatinho, né?

Há ainda alguns pacientes que durante a troca dos dentinhos de leite (dentes decíduos), algum pode acabar ficando preso no dente permanente e só vai sair através da retirada cirúrgica. Não retirar esse dente, vai facilitar o acúmulo de tártaro e inicia-se o processo da doença periodontal.

Às vezes, os tutores nem percebem e quando vai ao MV, tem-se o diagnóstico e então, a extração do dente e a profilaxia dentaria são indicados. Eu, particularmente, gosto muito de passar essas informações desde a consulta pediátrica, para já começar a condicionar esse gatinho, a uma rotina de escovação dos dentinhos.

Mas como faz para escovar os dentinhos do meu gato?

Quanto mais jovem manipularmos a boca do gatinho (até mesmo as patinhas pra facilitar o corte das unhas), mais fácil será a aceitação da escovação. Pode-se iniciar esse processo manipulando a boca dele, por exemplo, olhar os dentinhos sem usar escova de dentes nem nada, só com os dedos mesmo e sempre fazer o reforço positivo, como já comentei nos outros posts.

Conforme ele aceita, inicia-se o uso de uma gaze enrolada no dedo indicador com o uso de pasta dental de uso exclusivo para pets, NÃO pode usar pasta de humanos, ok? E assim, vai massageando suavemente todos os dentes. Após realizar a escovação, sempre dê muito carinho e alguma comidinha gostosa ou petisco, para fazer a associação positiva.

Na ideia deles é assim: se eu aceitar que escove meus dentes, depois vou ganhar alguma guloseima gostosa. (Sempre sem exageros, pessoal! Não vai entupir o gato de petisco, combinado? Risos).

Vocês vão perceber quando eles já estão mais condicionados para então, iniciar a nova fase: o uso da escova dental de tamanho adequado e específica para pets. Caso ele aceite só a gaze, não tem problema, o importante é realizar esse procedimento. Porque esse momento não deve causar estresse nem pro gato e nem pro humano.

Devo explicar que a escovação caseira ajudará a remover somente a placa bacteriana e não a formação do cálculo (tártaro) dentário. De tempos em tempos, seu gatinho deverá passar por uma profilaxia dentária com o MV.

Quem mora em grandes centros urbanos, tem acesso muito mais fácil em dentistas veterinários (sabiam que existe essa especialidade?) para ter um tratamento muito mais certinho, com acesso a tratamento de canal (igual em humanos) e radiografia odontológica, por exemplo. Sempre vale a pena procurar um especialista, se possível.

A alimentação também influencia em tudo isso que comentei até agora, se o alimento é úmido (sache) ou seco (ração em pellets), tamanho e formato do grão. Aqueles que precisa mais mastigação, faz com que haja mais atrito nos dentes, diminuindo a formação do cálculo. Há algumas rações que colocam substâncias que auxiliam no controle do tártaro. Existe o “Conselho Veterinário para Saúde Oral” (vohc.org) que você encontrará uma lista com produtos que tem eficácia comprovada por MV.

Agora vamos a nossa realidade, sabemos que a rotina e a falta de tempo das pessoas acabam dificultando que a atenção a saúde bucal dos pets seja adequada.  Por exemplo, aqui são 6 membros da gangue felina. Como a escovação não é frequente, acompanhamento veterinária e periódicas profilaxias dentárias são realizadas nos meus pets.

Aqui em casa, chegou a vez da Mona (figura 02) e da Juju (figura 03) fazerem a profilaxia dentária. As fotos abaixo foram feitas quando elas estavam anestesiadas. A Juju apesar de ser mais nova que a Mona – 4 e 8 anos, respectivamente, além de tártaro, já apresentava lesão de reabsorção em um pré-molar e  exposição de raiz do mesmo e por causa disso, foi preciso extrair esse dente. Enquanto que a Mona, apenas a limpeza foi suficiente. Pra vocês verem que nem por ser a mais nova, a boca da Juju era a mais saudável.

 

Figura 02. Foto do antes e depois da profilaxia dentária da Mona. No círculo, podemos ver a presença de uma grande placa de cálculo (tártaro). Não foi precisa realizar extração de dentes. Fonte: arquivo pessoal.

 

Figura 03. Foto do antes e depois da profilaxia dentária da Juju. No círculo, podemos ver a presença de uma lesão de reabsorção no dente pré-molar direito que precisou ser extraído. Fonte: arquivo pessoal.

 

Espero que tenha esclarecidos as duvidas e as perguntas que vocês nos enviaram pelo Instagram (@maisgatodoquenunca) e que tenha conseguido alertar sobre como não devemos deixar a saúde bucal deles de lado.

Grande abraço, Mai

 

16 de março de 2021

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Sobre a autora

Conheçam a nossa humana que é quem escreve no nosso blog, ela se chama Maiara Scapini Bazotti, é Médica Veterinária formada pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em 2015. Durante 2016 a 2018, fez residência veterinária no Hospital de Clínicas Veterinárias (HCV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na área de clínica médica de pequenos animais, se apaixonando ainda mais pela clínica de felinos. Atualmente, está realizando a pós graduação em clínica e cirurgia de felinos.

@vetmaiarabazotti

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